Bruna, um pouco nervosa, colocara a mão sobre a lataria do
carro, fitando Arthur dormindo com as pernas encolhidas. Pensara numa resposta
e respirara fundo.
- Entendo. Estou com um problema e não vou conseguir ir para a
delegacia agora. Amanhã de manhã eu vejo o que faremos. Boa noite! – Desligara
o celular e entrara no carro, saindo em disparada para o seu destino.
Em dez minutos, a delegada estacionara seu veículo a frente da
portaria do edifício em que Guilherme residia. Bruna aproximou-se do interfone e
pressionou um botão. Em poucos segundos, o porteiro estava a sua frente. Conversaram
por uns minutos até que Bruna retornara ao carro e pegara Arthur no colo.
Subira sozinha ao andar que o porteiro havia lhe informado.
Pressionou a campainha.
Guilherme abrira a porta. Ele vestia apenas um calção branco.
Música: Sol
de Paz – Strike.
- Você? Eu não sabia que... – Fitara Arthur em seus braços e
estendera seus braços. Bruna recuara.
- Achei melhor não te falar nada. E se não for pedir demais,
seria bom eu colocá-lo na cama. Ele pode acordar e fazer milhões de perguntas.
- Eu entendo. Venha comigo.
Bruna colocara Arthur carinhosamente na cama e o tapara com uma
coberta. Guilherme dera um beijo em sua testa e ambos saíram do quarto.
- Não sei nem como lhe pagar por isso, Bruna. – Guilherme fitara
seus olhos. – Obrigado.
- Não há de quê, Guilherme. Fiz o que achei certo... Eu preciso
ir. Com licença. – Desceu as escadas. Guilherme a fitara com um sorriso no
rosto.
***
Alessandra, com roupas simples, observara a mãe, Vivian assistir
televisão no quarto, deitada na cama. Batera a porta do cômodo e desligara a
televisão, fitando-a raivosamente.
- O que aconteceu? – Vivian trajava uma bela camisola de renda
branca. Levantara da cama e caminhara para uma cômoda onde havia bebidas.
Servira um copo de uísque. – Você nunca
foi disso.
- Eu ouvi você falar do meu pai. Por que mentiu?
- Eu não menti! Só não queria que você soubesse da verdade.
- Que verdade?
- É uma longa história, Alessandra. Não precisa saber da minha
boca, afinal não vai acreditar como sempre. Procure o seu pai então. É
ex-governador do estado e milionário... Se for o que lhe interessa.
- Dinheiro? Não. Nunca precisei ser milionária, viver numa
mansão rodeada de empregados me servindo para ter o que eu quero. Agora você...
É podre por dentro. Não pense que eu esqueci. Eu sei de muita coisa a seu
respeito que pode te levar para a prisão até seu último dia de vida. Se fosse
em outro país, até pena de morte.
- CALA A BOCA! – Pressionara o braço da filha e a levara para
fora do quarto. –Cuidado onde você se mete, ouviu? Não me responsabilizo pelas conseqüências.
– Batera a porta. Alessandra continuava a rir, porém um pouco tensa. Vivian
enchera mais um copo de uísque e tomara todo o líquido em um gole. Exibia uma
expressão apreensiva.
***
Música:
Best Day Of My Life – American Authors
O relógio marca pontualmente sete e meia da manhã. Rafaela,
trajando um belo vestido azul abre a porta e encontra Bruna ingerindo café
preto. Ela senta-se a mesa, pega uma maçã vermelha e a morde.
- Você chegou tarde ontem... Aconteceu alguma coisa? – Indagou
Rafaela.
- Eu mal estive na delegacia ontem. Ajudei um homem a procurar o
filho. Ficamos o dia inteiro juntos e no final, quem encontrou fui eu voltando
para casa.
- Homem? Quem é?
- É mais um suspeito, segundo os convidados. Mas eu olho pra ele
e não vejo um assassino. Vejo um homem estressado, inocente e... Um pai
maravilhoso. – Sorriu.
- A última vez que você se sentiu assim foi com um cara que você
chegou a noivar. Você teve que prendê-lo e decidiu acabar com tudo, não é?
- A diferença é que eu não investigava a morte da esposa dele. O
que vão dizer a meu respeito? Seria um escândalo!
- Eu te conheço, Bruna. O problema não é investigar a morte da
esposa desse cara. E sim gostar dele e provavelmente ter que prendê-lo.
- Já deu a minha hora! – Levantou-se, pegou sua bolsa e a chave
do carro. – Ah, tem uma carta para você. – Pegou-a e deu nas mãos de Rafaela. –
Até mais!
Rafaela virou a carta. Estava sem remetente. Abriu. Retirou a
folha que havia dentro. Levantou-se e deu voltas na sala enquanto lia:
“Rafaela,
Soube que você bateu o pé quando recebeu a notícia de que eu
iria me aproximar da Giulia, que é minha filha.
Não quero tornar essa situação chata e conflituosa, mas exijo
meus direitos como pai, ainda que você não me considere um.
Cumprirei minha pena dentro de alguns dias e você não terá como
impedir de que eu veja minha própria filha.
Fausto”.
- Miserável!
***
Música:
Rude – Magic!
Bruna, trajando uma calça jeans vermelha e uma blusa de renda
branca, adentra em sua sala. Senta-se em sua cadeira giratória e liga o
computador. Um homem bate na porta e adentra.
- Com licença, delegada. Recebemos o áudio da confissão. A voz
está difícil de ser reconhecida, mas a partir dessa, podemos tirar uma pessoa
da lista de suspeitos.
- Quem?
- Escute você mesma!
- “Você precisa ser
rápida. Não chame o Guilherme agora. Ele precisa ir DEPOIS do crime. Assim,
todos acharão que ele matou a própria esposa. Nós enganamos a polícia...” – o
áudio terminara.
- Então foram por isso os burburinhos sobre o Guilherme! Ele foi
o primeiro a chegar ao local do crime. Logo, as pessoas comentaram e criou-se o
boato. Segundo esse áudio...
- O Guilherme não tem envolvimento no crime. – O investigador
fitara Bruna, que exibia um sorriso tímido. – Mas é bom você chamar os cinco
suspeitos para um novo depoimento.
***
Guilherme adentra no quarto do filho trajando um terno preto.
Ele abre as cortinas e Arthur abre os olhos lentamente, pondo sua mão sobre a
cabeça, que começa a doer. Guilherme puxa um puff de bola de futebol branco
próximo a cama do filho, senta-se e põe sua mão sobre a testa da criança.
- Você continua de febre. - Mostrou um sorriso com os lábios. – Vou
pedir para a Rosa lhe dar um remédio e você vai ficar bom logo, está bem?
A criança puxara a coberta até seu pescoço e balança a cabeça
positivamente.
- Pai... Você está bravo comigo?
- Não, filho. Eu entendo que você ficou desesperado, assustado,
preocupado... Mas fugir não resolve nem o pior problema do mundo. Agora você
está com febre, com dor... Não faz mais isso, ok?
- A mamãe sempre cuidava de mim quando ficava doente. Nem ia para
o trabalho. – Observou o terno. – Eu li no jornal que você...
- Mas eu vou cuidar de você. Quem disse que não? – O menino
baixara a cabeça. – Eu sou o seu pai. E jamais faria algo que lhe magoasse.
Ambos sorriram. Arthur, sentindo dor, passara a mão novamente
pela área dolorida.
- O que aconteceu? – Perguntou, analisando a cabeça.
- Não lembro... Eu não tinha nada... E um homem me bateu com uma
arma.
- Alguém te ajudou? – Perguntou nervoso.
- Uma mulher disse que te conhecia e ia ligar pra você. Mas chegando
lá, ela disse que eu nunca mais ia voltar para casa e me obrigou a limpar a
casa.
- E você limpou?
- Não. Eu fugi e dormi num banco da praia.
- Entendi. – Levantou-se e abriu a porta. – Descansa, está bem?
Eu volto daqui a pouco.
Arthur deitara para o lado e abraçara um ursinho, encharcando-o
de lágrimas. E aos poucos, soluçado, pegara no sono.
***
Rachel senta-se a mesa, em frente à Maria Paula que ingere
alguns goles de suco e uma salada de frutas. As duas trajam um vestido preto e
amarelo respectivamente.
- Preparada, filha? – Rachel indagara com um sorriso no rosto.
- Preparada... Pra quê?
- Em poucos dias o Arthur estará em minhas mãos. Na verdade, em
NOSSAS mãos.
- Se você pensa em seqüestrar o menino, pode tirar o seu
cavalinho da chuva. Ele é seu neto! Você só pensa em dinheiro, em luxúria, em
status... Cadê o amor que você mostrava para a criança?
- Não seja hipócrita. Você deseja o dinheiro tanto como eu. –
Dobrou as pernas e sorriu. – Antes de ser presa você jurou roubar todo o dinheiro
da Lana. Arrependeu-se?
- O que a minha irmã fez não tem perdão. – Parou por um momento.
- Usar uma criança para satisfazer minhas vontades nunca esteve nos meus
planos.
Rachel, completamente irritada joga o copo contra o retrato de
Lana, que se quebra em pequenos pedaços. Em seguida, retira-se do local.
***
Antônia abre a porta de seu quarto trajando uma camisola
simples. Ela abre a geladeira – com poucos alimentos – e deposita o leite em
uma leiteira e coloca sobre uma boca do fogão, acendendo-o. Senta-se a mesa e
abre as cartas de cobrança que estão sobre um cesto, no centro da mesa. Ela
anota os valores em um papel e se entristece com o resultado.
- Mais uma vez apertada. – A moça bufa e coça a cabeça.
Ela caminha para o banheiro e observa alguns fios de cabelo
espalhado pelo piso. Abre a lixeira e vê uma sacola plástica. Antônia retira e
abre. Enfurecida, ela joga na pia.
Abre outra porta e observa uma menina, de aproximadamente treze
anos arrumar uma touca vermelha. Ela traja seu uniforme e carrega a mochila no
ombro esquerdo.
- Mãe? Aconteceu alguma coisa? – A garota põe seu celular no
bolso e coloca os fones por dentro da blusa.
- Aconteceu sim. – Puxa a touca e observa a lateral esquerda do
cabelo raspada. – Você pode me explicar o que é isso, Liz?
- Eu quis mudar um pouco. O cabelo é meu e você não pode me
impedir!
- Eu sou a sua mãe. Isso não faz o seu tipo, minha filha. O que
deu em você?
- Mas agora faz. Com licença, eu vou me atrasar para o colégio.
– Parou na porta. – E vou almoçar lá.
- Filha... – Ouvira a porta bater. – Eu preciso achar uma forma
de conseguir dinheiro logo!
Antônia volta à cozinha e desliga o leite, despeje numa caneca e
mistura achocolatado. Ela mexe pensativa.
***
Alessandra, trajando uma blusa com estampa branca, uma saia de
renda preta com uma bolsa a tiracolo pressiona a campainha de uma mansão. A
porta se abre e um mordomo, de estatura média aparece.
- Pois não? Em que posso ajudá-la?
- Eu gostaria de conversar com o senhor Carlos Henrique
Casagrande. Ele está?
Uma mulher loira observa a conversa por trás de um pilar. Ela
aproxima-se da porta e fica atrás do mordomo, com os braços cruzados.
- Pode ir, Albertino. Eu lhe chamo caso for necessário. –
Observou o homem se retirar. – Quem é você? O que deseja com o meu marido?
- Meu nome é Alessandra. Sou filha biológica do seu marido.
- Como assim filha? A única filha que o Carlos Henrique possui é
comigo, garota.
- Eu sou fruto de um caso que ele teve antes de casar com a
senhora. Na época ele estava casado...
- SAIA DAQUI! – A mulher empurrava a porta. – O Carlos Henrique
não tem nada para falar com você. Vá antes que eu chame a polícia!
Alessandra desiste. A porta é fechada na sua cara. Mais a
frente, ela observa um homem, de aproximadamente quarenta e cinco anos sair do
banco de carona de um carro. Ela esconde-se e observa-o entrar por outra porta.
Após, ela corre para a calçada, estendendo o braço e adentrando
em um táxi.
***
Passa-se do meio dia. Em uma banca, há várias pessoas comprando
jornais e revistas. No canto superior direito vê-se um convite de sepultamento.
“Marido Guilherme Steffens.
Filho Arthur Albuquerque Steffens.
E demais familiares e amigos íntimos comunicam o falecimento de
LANA ALBUQUERQUE
Falecida no dia 17/05/2015 na idade de 45 anos.
O sepultamento acontecerá ás 09h00 desta Quinta-feira (21/05/15)
saindo o féretro da Rua Vicente Moraes para o cemitério católico”.
***
Um carro preto estaciona próximo a casa de Bruna. Eles observam
Rafaela e Giulia adentrarem em casa. Um dos bandidos, já dentro da residência,
põe dentro do bule de café um sonífero, porém nenhuma das duas o toma.
Bruna entra em casa, enquanto Rafaela sai. A delegada pega uma
xícara e deposita o café. Ela ingere rapidamente. O bandido observa Giulia
descer as escadas e entrar no banheiro.
- Meu Deus... Que sono! – Bruna senta no sofá e em poucos
segundos, adormece.
Outros três homens adentram na residência e espalham gasolina
pelo local enquanto um tranca o banheiro pelo lado de fora.
- Vou ser bonzinho dessa vez! – Diz deixando a chave na porta.
Os quatro se retiram silenciosamente. O último acende um isqueiro
e joga para o alto. Ao sair da residência, correm para o carro que arranca
rapidamente enquanto o fogo se espalha pelo local.

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