segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Capítulo 14: Castelo de Cartas

CENA 01/INT./MANSÃO TRINDADE/QUARTO FERNANDA/DIA
FADE IN.
Maria Fernanda mexe no computador.
MARIA FERNANDA - Será que a incompetente da Madalena já cumpriu o castigo? Pior que eu nem posso olhar, esses relatórios da Trindade me deixam de cabelo em pé. Ser acionista majoritária dá mais trabalho do que eu pensava...
Ouvem-se batidas na porta.
MARIA FERNANDA - Entra, tá aberta!
Madalena entra, acanhada.
MADALENA - Dona Maria Fernanda, eu já terminei de limpar a sala. A senhora quer mais alguma coisa?
MARIA FERNANDA - Quero! Vai buscar um suco natural de laranja pra mim, com dois cubos de gelo.
MADALENA - Ah, mas acontece que eu passei na cozinha agora mesmo e vi que só tem suco de caixinha. A senhora aceita?
MARIA FERNANDA - Você está surda? Eu pedi suco natural, isso quer dizer que eu quero suco natural e não de caixinha. Quer me ver gorda tomando essas porcarias?
MADALENA - Dona Maria Fernanda, mas/
MARIA FERNANDA - (corta) Mas nada, Madalena. Dá o seu jeito. Compra umas laranjas e espreme, não sei, se vira! Eu quero esse suco ainda hoje!
MADALENA - Ah, é verdade. Tem laranja na geladeira, eu não pensei que eu pudesse espremer.
MARIA FERNANDA - Não pensou porque é burra, né?
Madalena baixa a cabeça.
MARIA FERNANDA - Anda, criatura! Tá pensando na morte da bezerra? Vai fazer a droga do suco!
MADALENA - Sim, senhora. Eu já volto com o seu suco.
MARIA FERNANDA - Assim espero!
Madalena sai.
MARIA FERNANDA - Incompetente...
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CENA 02/INT./MANSÃO TRINDADE/SALA/DIA
Madalena desce as escadas. Vitória entra com várias sacolas.
VITÓRIA - Madalena, você por aqui? Mas você não foi demitida pela... coisa ruim?
MADALENA - Eu fui sim, mas a dona Ingrid me contratou de novo.
VITÓRIA - Que bom!
Angélica sai do escritório.
MADALENA - Essa é a minha sobrinha, Angélica. Ela é de Niterói, mas tá passando as férias aqui no Rio.
VITÓRIA - Oi, Angélica! Tudo bom?
ANGÉLICA - Tudo. E com você?
VITÓRIA - Tô ótima. É um prazer conhecer você!
Lucas entra com um pinheiro no ombro e o põe em um canto da sala.
VITÓRIA - Lucas, pra que carregar esse peso todo? Você podia ter me pedido ajuda.
LUCAS - Claro que não. Esqueceu que o médico te recomendou repouso?
Lucas vira-se e vê Madalena.
LUCAS - Madalena? Você voltou?
MADALENA - Voltei, e pra ficar! A dona Ingrid me recontratou.
LUCAS - Que notícia ótima!
Lucas abraça Madalena.
MADALENA - É, tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas deixa eu ir preparar um suco pra sua mãe que hoje ela tá que tá!
VITÓRIA - Eu imagino...
LUCAS - Vem cá, ela não fez nada pra te humilhar ou te colocar pra baixo não, né?
MADALENA - (disfarça) Ela? Não... não, nada. Eu... é... eu vou pra cozinha fazer o suco. Tchau!
Madalena vai para a cozinha.
LUCAS - Aí tem!
ANGÉLICA - A tia Madá tá estranha... alguma coisa aconteceu.
LUCAS - Bem, vocês me ajudam a montar a árvore de Natal? Vitória, traz os enfeites!
Vitória leva algumas sacolas e os três começam a enfeitar o pinheiro.
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CENA 03/INT./CASA DE ROSICLER/QUARTO/DIA
Rosicler deitada na cama e Greg em pé.
ROSICLER - O que você tá fazendo no meu quarto? E ainda mais sem camisa?
GREG - Calma, não vai acontecer o que você tá pensando. Eu tô me escondendo, Rosicler!
ROSICLER - Se escondendo de quem? Da polícia? Olha, eu não quero abrigar um criminoso na minha casa.
GREG - Não, que mané polícia? Eu tô me escondendo da... como é que eu vou te falar? É... das minhas namoradas.
ROSICLER - Como assim? Você tinha mais namoradas além de mim e da Nenê? Safado!
GREG - É, mas só duas tão atrás de mim: a Nenê e a Mayara. Por favor, não fala pra elas que eu tô aqui.
ROSICLER - Deixa eu ver se eu entendi. Você tá correndo de duas namoradas suas que descobriram que são chifradas por você, certo?
GREG - Isso.
ROSICLER - Aí você vem na casa de uma mulher que você também traiu e pede pra ela te ajudar a se esconder.
GREG - Sabe como é, são coisas da vida. Mas você não vai falar nada, né?
ROSICLER - Pode ficar tranquilo que eu não vou falar nada.
GREG - Ufa! Obrigado, Rosicler!
ROSICLER - Eu vou gritar!
Rosicler abre a janela.
ROSICLER - (grita) O safado tá se escondendo aqui dentro! Ele tá aqui!
GREG - Rosicler!
Greg tenta se esconder no armário, mas Rosicler o tira de lá.
ROSICLER - Nananinanão, agora você vai sofrer as consequências, seu polígamo!
GREG - Do que você me chamou? Isso é um xingamento?
Nenê e Mayara entram.
NENÊ - Ah, cara de pau! Se escondendo na casa de outra corna, né?
MAYARA - Como é que é? Tem uma terceira na história, é isso?
ROSICLER - A terceira tem nome: Rosicler. O prazer é todo seu!
GREG - Meninas, calma. Eu tenho como explicar!
MAYARA - Não, você não vai explicar nada. Eu já tive que aguentar uma sem-sal ali na entrada me fazendo um interrogatório.
ROSICLER - Olha, você dobra essa sua língua de cobra pra falar da minha filha!
MAYARA - Sua filha? Pelo menos você sabe quem é o pai?
ROSICLER - Claro que eu sei, tá pensando que eu sou o quê? O meu Haroldo já tá a sete palmos de terra!
NENÊ - Não aguentou você, né?
ROSICLER - Ah, sua descarada!
As três mulheres começam a brigar e puxar os cabelos. Greg aproveita e sai de fininho.
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CENA 04/INT./CASA DE WALKIRIA/SALA/DIA
Társis e Walkiria sentados no sofá. Társis assiste TV e Walkiria lê uma revista. Tempo.
WALKIRIA - Ai, que silêncio! Não tem nenhum assunto pra gente conversar?
Silêncio.
WALKIRIA - Társis? Você ouviu o que eu falei? Társis!
TÁRSIS - Oi? Ah, claro. Cárcere privado é assim mesmo.
WALKIRIA - Que cárcere privado, garoto? Fica assistindo esses programas de sequestro e depois essas coisas ficam na sua cabeça.
TÁRSIS - Hum...
WALKIRIA - (acariciando Társis) Bem que a gente podia dar uma animada nesse domingo tedioso, né? O que você acha?
TÁRSIS - Opa. Me animei!
WALKIRIA - Então desliga essa TV e vem pro quarto, vem!
Walkiria levanta e vai para o quarto. Társis a segue.
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CENA 05/INT./CASA DE WALKIRIA/QUARTO/DIA
(SONOPLASTIA: AM I WRONG - NICO & VINZ)
Janelas e cortinas fechadas. Meia-luz.
SLOW MOTION: Társis deita Walkiria na cama e a beija. Ela distribui beijos pelo pescoço de Társis. Tempo. Um começa a despir o outro. Társis adentra os dedos no cabelo de Walkiria. Eles fazem amor.
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CENA 06/EXT./STOCK SHOTS/RIO DE JANEIRO/DIA
Sonoplastia continua. Movimentos rotineiros. Começa a cair uma garoa.
MUSIC FADE.
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CENA 07/INT./MANSÃO TRINDADE/SALA/DIA
Lucas e Vitória, abraçados, assistem TV. Angélica mexe no celular. Entra Ingrid com sacolas.
LUCAS - Finalmente hein, vó? Pensei que a chuva ia pegar você.
INGRID - Por pouco não pega, Lucas, por pouco!
VITÓRIA - O que são essas sacolas aí, dona Ingrid? É presente pra gente? Hahaha.
INGRID - Pode-se considerar um presente sim. É a ceia de amanhã. Esqueceram que hoje já é 23?
VITÓRIA - Ah, é verdade. Mas com essa crise, conseguir comprar um peru pra ceia é um baita presentão.
INGRID - É verdade. E você Angélica, tudo bem? Angélica, entretida no celular, não escuta.
INGRID - Angélica? Você me ouviu?
ANGÉLICA - Ahn? Alguém me chamou?
Ingrid ri.
INGRID - Essa geração tá viciada nessas tecnologias, né? No meu tempo, eu nem sonhava com essas coisas. Até porque eu não vejo um celular como uma diversão maior que um bom brinquedo.
ANGÉLICA - Mas é divertido sim. Hoje mesmo eu tirei umas selfies no seu escritório.
INGRID - Selfie? Que é isso?
ANGÉLICA - São fotos de si mesmo, dona Ingrid. Quer ver as minhas?
INGRID - Ah, quero sim. Me mostra!
Ingrid põe as sacolas sobre a mesa de centro e senta-se ao lado de Angélica, que mostra as selfies. No outro sofá, Lucas e Vitória conversam.
VITÓRIA - Lucas, eu vi a dona Ingrid agora e lembrei que você me disse que vocês dois juntos têm 50% de ações na Trindade e podem ser acionistas majoritários como a Maria Fernanda.
LUCAS - É, isso é verdade. Mas a gente deixou isso pro ano que vem. Vai ser um presentinho de ano novo pra Maria Fernanda Trindade.
VITÓRIA - Ah, entendi. E você acha que a Maria Fernanda ainda pode fazer uma burrada que leve a Trindade à falência?
LUCAS - Não acho, tenho certeza! Por isso logo em janeiro eu e a vovó juntaremos as ações pra salvar a Trindade.
VITÓRIA - Tomara que vocês consigam. A Maria Fernanda no topo não é nada bom. Aliás, que ideia foi essa do seu avô em dar a maior parte das ações pra ela?
LUCAS - Pois é, isso foi muito estranho. A gente tá achando que ela falsificou o testamento, mas ainda não há nenhuma prova, nem nada. Eu só sei que o vovô, em sua sã consciência, não faria isso. Ele sabia como a minha mãe era louca pelo poder.
VITÓRIA - Verdade, é muito mais fácil acreditar que a sua mãe falsificou esse testamento. Mas se isso for verdade, ela ainda deve ter o testamento original, né?
LUCAS - Tá aí, eu nunca tinha pensado nisso. Amanhã mesmo eu vou procurar nos quatro cantos do quarto dela.
VITÓRIA - E por que não hoje mesmo?
LUCAS - Hoje ela resolveu se enfiar no quarto. Dizendo ela que precisa fazer uns relatórios da Trindade. Quem vê jura que aquilo ali trabalha.
VITÓRIA - Ai, Lucas. Que jeito de falar da própria mãe...
LUCAS - Tô mentindo?
Os dois riem. Do outro lado, Angélica continua mostrando suas selfies pra Ingrid.
ANGÉLICA - E essa aqui?
INGRID - Até que essa ficou boa, mas ficou um pouco borrada.
ANGÉLICA - É, né? Vou apagar.
Angélica apaga a foto e mostra outra.
ANGÉLICA - E essa, o que você acha? Não ficou borrada.
INGRID - Essa ficou linda! Mas o que é isso aqui?
ANGÉLICA - Isso o quê?
INGRID - Isso aqui no fundo. Tem como ampliar a foto?
ANGÉLICA - Tem sim.
Angélica amplia a foto e ao fundo pode-se ver Maria Fernanda com o pé sobre Madalena, que está lambendo o chão.
INGRID - Isso não pode ser o que eu tô pensando. A Maria Fernanda não pode ter sido capaz de uma coisa dessas.
ANGÉLICA - Eu não acredito que essa bruxa fez isso com a minha tia Madá. Ela fez ela lamber o chão!
INGRID - (sussurra) Eu não te criei pra isso, Maria Fernanda...
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CENA 08/INT./MANSÃO TRINDADE/QUARTO FERNANDA
Maria Fernanda digita rapidamente. Ingrid, com o celular de Angélica na mão, abre a porta, entra, e fecha novamente, fazendo grande barulho.
MARIA FERNANDA (levantando-se) - Credo, mamãe. Deixa ao menos as dobradiças. Pra que tanta revolta com as portas?
INGRID - Pra que tanta falta de amor com as pessoas?
Ingrid dá um tapa em Maria Fernanda.
MARIA FERNANDA - Que é isso, tá ficando louca? Ah, claro. Tá ficando velha!
INGRID - Eu não entendo, Maria Fernanda. Você humilha as pessoas por puro prazer, você não tem coração!
MARIA FERNANDA - Mamãe, você pode ser mais clara?
Ingrid mostra o CELULAR para Maria Fernanda.
INGRID - Ainda não me caiu a ficha, Maria Fernanda. Eu não consigo crer que você foi capaz de uma barbaridade dessas com a Madalena.
MARIA FERNANDA - Isso... eu não fiz isso! Tá na cara que é montagem, a Madalena não tem a perna nas costas.
INGRID - Não se faça de sonsa! Isso aqui é a sua perna pisando a Madalena enquanto a coitada lambe o chão sujo. Essa foi a gota d'água!
MARIA FERNANDA - Essa menina... essa Angélica armou isso pra mim. Os jovens de hoje manjam muito bem dessas coisas de computador. Ela fez uma montagem pra voltar você contra mim!
INGRID - Cínica! Como você pode ser tão cara-de-pau? Eu e o seu pai te colocamos nas melhores escolas do mundo, Maria Fernanda, do mundo! E tudo pensando na sua educação e na sua formação como pessoa. E já depois de grande, você se mostra uma pessoa podre, amarga. EU NÃO TE ENSINEI ASSIM!
Ingrid dá outro tapa em Maria Fernanda, que segura seus pulsos.
MARIA FERNANDA - Olha bem pra mim! Tira essa sua mão da minha cara! Quer saber? Eu fiz isso sim! Obriguei a infeliz da Madalena a lamber o chão, obriguei! Pisei nela, pisei! E sabe por quê? Porque eu quero e eu posso! Essa casa é minha, e se eu quiser eu sapateio em cima de todas as empregadas. Se eu quiser, eu mato todo mundo, entendeu? Todo mundo!
Close nos OLHOS de Maria Fernanda (arregalados e vermelhos). Ingrid desmaia e Maria Fernanda a solta no chão.
FLASHES da cena 03/capítulo 13.
INGRID - (V.O.) Espera, filha!
MARIA FERNANDA - (V.O.) O que é, mamãe?
INGRID - (V.O.) Eu te amo!
Maria Fernanda deixa escorrer uma lágrima e a limpa rapidamente.
MARIA FERNANDA - O amor não existe!
Maria Fernanda sai do quarto. Fecha em Ingrid caída no chão.
Corta para:

CENA 09/INT./CASA DE WALKIRIA/QUARTO/DIA
Társis e Walkiria nus, apenas enrolados em lençóis.
WALKIRIA - Ai, faz tanto tempo que a gente não fazia isso!
TÁRSIS - Foi bom?
WALKIRIA - Foi ótimo, eu adorei!
Walkiria sobe em Társis e os dois se beijam.
WALKIRIA - Gente! Duas da tarde! Tá na hora de eu ir pro ensaio da boate. Hoje à noite tem balada.
TÁRSIS - Ah, Walkiria! Você ainda tá com esse negócio de dançar em boate? Você sabe que eu não gosto.
WALKIRIA - Ciúmes, Társis? Hahaha! Não esquenta que, depois da balada, eu volto a ser só sua!
TÁRSIS - Só minha, é?
WALKIRIA - Inteiramente sua!
Os dois são um beijo quente e Walkiria sai da cama enrolada em um cobertor. Ela vai pro banheiro.
TÁRSIS - Agora é a hora!
Társis sai da cama, nu, e abre o armário.
CORTE DESCONTÍNUO: Társis, já vestido, penteia o cabelo.
TÁRSIS - Te prepara, neguinho!
Társis imita uma pistola com o dedo.
Corta para:

CENA 10/EXT./CASA DE ROSICLER/FRENTE/DIA
SOBE INSTRUMENTAL DE SUSPENSE.
Társis se esconde na lateral do muro e parece esperar alguma coisa. Ele olha para os dois lados. Não há ninguém na rua. Tempo. Danilo abre o portão e sai. Quando passa pela frente de Társis, ele põe um pano sobre seu rosto. Danilo dorme.
Corta para:

CENA 11/INT./QUARTO ESCURO/DIA
Sonoplastia continua.
Lugar sem nenhuma entrada de luz. Uma lâmpada se acende. Podemos ver Danilo sentado em uma cadeira, dormindo, com uma fita na boca e os braços amarrados. Um vulto passa na sua frente e joga água nele. Danilo acorda e se assusta.
TÁRSIS - (off) Bu!
Danilo se vira e vê Társis com um revólver na mão. Ele tenta falar algumas coisas, mas não consegue por causa da fita.
TÁRSIS - Se assustou, escurinho?
Closes alternados entre Danilo e Társis.


FIM DO CAPÍTULO

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