sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Capítulo 9: Ironia do destino

MANSÃO QUE ERA DE KARINA à FACHADA à MANHÃ (10h:27min)
MULHER: Karina Narva... ah, lembrei! Lembrei! Ela morava aqui sim, só que aí vieram muitas dívidas e ela vendeu essa mansão pra mim.
NANDINHA: Ah, entendi... mas você sabe onde ela foi morar?
MULHER: Pelo que ela me disse quando ela fez uma visita aqui, tá morando em uma fazenda lá no interior. Eu só sei que é seguindo essa rua direto e dobrando na esquina com a Rua Dois. O resto eu já não sei!
NANDINHA: Ah, obrigada! (Desce os degraus do jardim) É pra lá que eu vou.  Táxi! (Levanta a mão, abanando-a).
FAZENDA DE LOURIVAL à SALA à NOITE (21h:34min)
Karina, Zaqueu, Lourival e Rosidalva estão todos reunidos na sala de estar assistindo a novela das nove. Eles veem uma cena em que um casal está se beijando. Karina e Zaqueu se entreolham, deixando um sorriso despontar no canto de suas bocas. De repente, todos ouvem um barulho de palmas.
É Nandinha, do lado de fora, esperando que alguém abra a porta.
NANDINHA (gritando): Ô de casa!
LOURIVAL: Tá aguardando arguem, Karina?
KARINA: Eu não...
ZAQUEU: Quem será?
NANDINHA: Aff, que esse fim de mundo é longe mesmo, hein? Deus me livre!
ROSIDALVA: Acho mió ocê í atendê, Lourico!
LOURIVAL (levanta-se do sofá): Tá bom, eu vô mermo.
NANDINHA (gritando): Ô de ca... (vê Lourival abrindo a porta) Oi, meu nome é Fernanda. É aqui que mora Karina Narvalli?
LOURIVAL: É sim, dona Fernanda. Qué entrá pra fala cum ela?
NANDINHA: Eu quero sim.
Nandinha entra na sala da humilde casa de Lourival e Rosidalva.
“Que lugar mais pobre!” – pensa Nandinha.
LOURIVAL: Karina, essa moça aqui qué fala cocê.
KARINA: Quem é você?
NANDINHA: Meu nome é Fernanda Sousa e Albuquerque, mas pode me chamar só de Nandinha.
KARINA: Ah tá. Eu te conheço de algum lugar?
NANDINHA: Mais ou menos, eu era muito amiga do seu avô, Augustus.
KARINA: Ah, já entendi! Você é mais uma que ficava tentando arrastar asa pra cima do meu avô, né?
NANDINHA: Não, o que é isso? Longe de mim! Com todo o respeito, claro. Na verdade eu era uma das... das secretárias... é... eu era uma secretária daquela empresa dele, aquela que faliu, a... NarvalliCar.
KARINA: Hum... e o que você queria comigo?
NANDINHA: A gente pode conversar em particular?
KARINA: Podemos sim, vamos para o meu quarto.
Karina leva Nandinha até seu quarto. Zaqueu fica olhando Nandinha de cima a baixo, com um olhar um pouco apaixonado.
            FAZENDA DE LOURIVAL à QUARTO DE KARINA à NOITE (21h:36min)
            Karina e Nandinha entram no quarto da primeira.
            KARINA: E então, o que você queria falar comigo, Nandinha?
            NANDINHA: É que... eu perdi meu emprego, começaram a aparecer muitas dívidas e eu tive que vender minha casa pra poder pagá-las, só que assim eu fiquei sem ter onde morar. Você me entende?
            KARINA: Ô se entendo...
            NANDINHA: Então... eu fiquei sabendo que você, a neta do doutor Augustus, tava morando aqui nesse fim de...
            Karina olha para Nandinha com olhar de estranheza.
            NANDINHA: Nessa fazenda. Aí eu pensei: será que eu posso ficar morando por lá também?
            KARINA: Nandinha, me desculpa, mas eu não posso dizer nada. Você tem que falar com o dono dessa casa e de toda essa fazenda: o Lourival. E eu acho que ele só vai deixar que você fique morando aqui se você trabalhar. Ele me deixou ficar por aqui com a condição de que eu cuidasse dos por... dos animais dele.
            NANDINHA: Eu topo qualquer coisa! Cuidar de porco, dar banho em cavalo, limpar o cocô das galinhas... Qualquer coisa! Mas por favor, me deixa morar aqui.
            KARINA: Então vamo falar com o seu Lourival, eu acho que ele vai achar um servicinho pra você aqui.
            Karina vai pra sala e Nandinha fica sozinha no quarto. Ela dá um sorrisinho maldoso, de quem conseguiu o que queria.
            NANDINHA: Agora começa minha vingança, Karina Narvalli! Hahaha!
            Nandinha vai para a sala.
            CEMITÉRIO à INTERIOR à NOITE (21h:39min)
            Sabrina, Isabela, Hector e os pais e amigos de Miguelito estão no enterro de Miguelito, que morreu num acidente de carro, onde se chocou com um caminhão.
            PADRE: Amados irmãos, estamos aqui para sepultar o corpo de Miguelito Duarte Mendonça, um homem novo, que em um de seus devaneios veio a falecer em um acidente.
            Sabrina e Isabela choram bastante. Hector está com uma aparência de tédio.
            PADRE: Miguelito Duarte Mendonça, mesmo tendo sido infiel a sua esposa, Sabrina Medeiros de Carvalho, traindo-a com uma meretriz, foi um bom amigo a todos nós, um bom filho e um bom pai.
            SABRINA (murmura): Foi um grande safado, isso sim!
            PADRE: Agora, infelizmente, viemos a sepultar o corpo de Miguelito, e que ele viva em paz, ao lado do Deus dos exércitos, Pai dos Céus e da terra.
            SABRINA: Vai viver ao lado é do capeta.
            ISABELA: Mãe, isso aqui é um velório!
            SABRINA: Nunca ouvi dizer que em velório a gente tem que mentir.
            PADRE: Agora, amados irmãos, vamos fazer uma oração e depois, vamos cantar um hino em adoração ao nome de Deus.
            Todos começam a fazer a oração do Pai Nosso. Hector sai de fininho de perto de Sabrina e Isabela. Ele vai até Titica, que está com uma bolsa bonita.
            HECTOR (pensando): Hoje eu garanto a fortuna da minha vida!
            Hector decide falar com Titica.
            HECTOR: Olá, madam!
            TITICA: Madame? Coisa sua, tô mais pra escrava Isaura, isso sim.
            HECTOR: Eu fiquê sabendo que você estava a trabalhar no apartement de Lord Miguelito, non?
            TITICA: Era sim, mas eu peguei uma licença de uma semana pra eu cuidar da minha filha, a Marenilde. Tava com uma tosse de cachorro que só Jesus na causa. Deus me livre! Falando nisso, cadê a Marenilde? (vê Marenilde falando no telefone do lado de fora do cemitério) Ah menina danada (vira para Hector). O senhor me dê licença que eu vou dar uma ajeitada na minha filha.
            HECTOR: Eu acompanho a ti, madam.
            TITICA: Agradecida viu, seu... seu...
            HECTOR: Hector! Me chamo Hector!
            TITICA: Seu “Équito”, pois é. Marenilde, minha filha!
            CEMITÉRIO à LADO DE FORA à NOITE (21h:42min)
            TITICA: Minha filha, eu já vou pra casa. Se você quiser, pode ficar mais um pouquinho aqui. Mas se voltar depois das onze da noite, o couro vai comer, tá me entendendo?
            MARENILDE (falando no celular): Aham, colega. Só espela um pouco que minha mãe tá falando comigo aqui. (vira para Titica) Tá mãe, eu vou já já, só deixa eu telminal de falar aqui com a Selene, viu? (vira para Hector) E você gatão, me liga viu?
            TITICA: Safadeza, menina. Tu cria vergonha!
            HECTOR: Non ligue, madam.
            Titica vai embora e Hector acompanha ela. Quando chegam na esquina, Hector saca um revólver de seu bolso e coloca-o na cabeça de Titica.
            HECTOR (sem sotaque): Agora o papo é sério, passa a grana, dona!
            Titica ofega e fica suada.
CEMITÉRIO à INTERIOR à NOITE (21h:43min)
            Todos choram a morte de Miguelito. Zuleika também está no cemitério.
            ZULEIKA (para Sabrina): Desculpa, tá, por eu ter participado da traição do seu marido a você. Eu nunca imaginei que ele fosse casado! Me desculpa...
            SABRINA (chorando): Tudo bem, ele sempre foi um safado filho da mãe mesmo. Eu te desculpo, Zuleika. Mas, quer um conselho?
            ZULEIKA: Vindo de você, claro que eu quero!
            SABRINA: Sai dessa vida de prostituição. Arruma um bom emprego, ganha seu dinheiro e vai viver sua vida!
            ZULEIKA: Sabe de uma coisa? Vou seguir seu conselho. Prostituição nunca mais. Agora eu quero mudar de vida e ser uma nova mulher, uma nova Zuleika!
            SABRINA: É isso aí!
            Isabela, a filha mais nova de Miguelito e Sabrina, está perto do caixão do pai. Ela olha para o lado e vê, no portão do cemitério, o irmão, Márcio, que estava drogado.
            ISABELA (para Sabrina): Mãe, olha lá no portão (aponta para o portão).
            Sabrina vê o filho e corre para abraça-lo.
            SABRINA (chora): Meu filho! Meu filho, quanto tempo (beija o filho)!
            MÁRCIO: Mãe, um pouco antes da morte do papai eu senti uma dor aqui, no coração (põe a mão no peito), e eu percebi que eu tenho que sair dessa vida das drogas. Você me aceita de volta em casa?
            Sabrina abraça e beija Márcio outra vez.
            SABRINA: Mas é claro que eu aceito, filho! Eu te amo!
            MÁRCIO: Eu te amo!
            ISABELA: Márcio, eu também tô aqui, viu?
            MÁRCIO: Nossa, Isabela, como você tá grande! Nem parece aquela tampinha que você era antes de sair de casa.
            ISABELA: Hahaha, dispenso suas piadinhas!
            MÁRCIO: Tô brincando... mas me conta, como é que foi lá na França?
            Sabrina, Isabela e Márcio conversam, e depois se abraçam.
            CEMITÉRIO à LADO DE FORA à NOITE (21h:45min)
            Titica está desesperada, pois Hector, que não é francês coisa nenhuma, está ameaçando-a de morte se não passar tudo o que ela tem.
TITICA (grita): Socorro! Polícia! Socorro!
CEMITÉRIO à INTERIOR à NOITE (21h:45min)
As pessoas presentes no velório, inclusive Márcio, Isabela e Sabrina, ouvem os gritos de Titica do lado de fora do cemitério. Todos correm para ver o que está acontecendo.
                CEMITÉRIO à LADO DE FORA à NOITE (21h:45min)
            Marenilde também corre para ver o que está acontecendo com a mãe e vê Hector.
            MARENILDE: Ai, meu Deus! Você, gatão? É bandido? Socolo! Bandido!
            Todos chegam onde Titica e Hector estão.
            HECTOR: Todo mundo pra trás senão eu meto bala!
            ISABELA: Hector? Você não é francês?
            HECTOR: Bingo! Acertou na mosca!
            SABRINA: Bem que seu pai nunca acreditou nesse safado sem-vergonha. Alguém chama a polícia gente!
            ZULEIKA (pega o celular): Eu já tô ligando pra polícia.
            O padre mostra um crucifixo para Hector, fazendo uma oração.
            Todos estão desesperados.
            A polícia finalmente chega. Os policiais saem da viatura. Um deles reconhece Hector, que, na verdade, é um dos maiores bandidos de uma favela do interior do Rio de Janeiro.
            POLICIAL: Ei, é o Diabo Loiro!
            Diabo Loiro é como Hector é conhecido na favela.
            HECTOR: Vem não, seu polícia, vem não que eu vou atirar em todo mundo nessa...
            PADRE: Controle-se, rapaz! Você não pode deixar Satanás te possuir!
            HECTOR: Dane-se, seu padre!
            SABRINA: Larga a Titica!
            TITICA: Até que enfim alguém se lembrou de mim! Pelo amor de Deus, me tira daqui, seu policial!
            POLICIAL: Vamo, Diabo Loiro, solta a mulher. Agora!
            Hector se rende à polícia, e entra na viatura, algemado.
            POLICIAL: Obrigado por ajudar a gente a encontrar ele. Isso aqui é um bandido mais do que perigoso, a gente tava procurando ele a muito tempo!
            ISABELA: Bandido? Meu namorado fingir que era francês tudo bem, mas ser um bandido perigoso? É o fim! (Isabela começa a chorar)
            O policial entra na viatura com os companheiros e vai embora.
            TITICA: Ai, graças a Deus! Isabela, você tem que escolher melhor os seus namorados, minha filha. Você viu? Ele quase tirou minha vida!
            MÁRCIO: E logo a Titica, que é uma companheira da gente desde sempre!
            PADRE: Graças a Deus correu tudo bem. Obrigado meu Senhor, Deus dos Céus e da Terra!
            Todos abraçam Titica.
            CASA DE LEOLINA à SALÃO à MANHÃ (11h:31min)
            Leolina está dando uma grande festa em razão de seu aniversário. Vários convidados ricos e grã-finos chegam a essa festa, dando à aniversariante presentes finos e caros. Karina chega à festa acompanhada de Zaqueu. Zaqueu não está acostumado com todo aquele clima chique e fica estanhado tudo.
            ZAQUEU: Ave Maria, eu acho que num dá certo eu vir nessa festa aqui, só vem gente chicosa. Eu num vô sabê mi comportá não.
            KARINA: Para com isso Zaqueu, é claro que você vai se acostumar. Olha a aniversariante vindo aí!
            Leolina chega perto de Zaqueu e Karina para cumprimenta-los.
            LEOLINA: Karina, meu amor! Que bom que você veio! (Dá um beijo em cada uma das bochechas de Karina). E esse rapaz, quem é? Seu namorado?
            KARINA: Não, não... esse é o Zaqueu, meu amigo.
            LEOLINA: É um prazer! Leolina Zorobabel.
            Leolina estende a mão direita para Zaqueu beijá-la. Ao levantar o braço, Leolina deixa à mostra uma cicatriz semelhante à que Karina viu nas imagens das câmeras.
            Karina fica apavorada.


CLOSE NA EXPRESSÃO DE PAVOR DE KARINA. O ROSTO DELA VIRA UMA MOEDA.

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