CENA
01/EXT./STOCK SHOTS/RIO DE JANEIRO/DIA
FADE IN.
(SONOPLASTIA:
OBLOCO - MARIA GADÚ)
Imagens
do cotidiano. Pessoas caminham na orla. Um mulher rega seu jardim. Crianças
brincam na praia. Panorâmica do Cristo Redentor.
MUSIC FADE.
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02/INT./SUPERMERCADO/DIA
Lucas
empurra um carrinho não muito cheio. Vitória corre até ele, com três caixas nas
mãos.
LUCAS
- O que é isso?
VITÓRIA - Ué, as bolinhas pra árvore de Natal. Não
foi pra isso que a gente veio aqui, pra comprar os enfeites pra sua casa?
LUCAS
- Putz, eu já tava esquecendo. É que aquilo na hora do café me deixou muito
intrigado.
VITÓRIA
- Eu também fiquei. Lucas, será que eu sou um estorvo pra vocês? Pode falar,
não tem problema, eu paro de frequentar a sua casa/
LUCAS
- (corta) Não, Vitória, claro que não. A minha mãe é que gosta de implicar com
todo mundo mesmo. Quanto a isso, você não precisa dar a mínima importância.
VITÓRIA
- Mas o que não me sai da cabeça é a reação da sua mãe quando eu falei do meu
pai, lembra?
LUCAS
- Lembro. E também lembro que, nessa hora, a minha avó saiu correndo da mesa,
se isolou no quarto. O que será que tá acontecendo, Vitória?
VITÓRIA
- Essa é a pergunta que não quer calar. O que tá acontecendo?
Os
dois continuam andando.
Já cortou antes para:
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03/INT./MANSÃO TRINDADE/SALA/DIA
Ingrid
desce as escadas falando ao celular e enxugando as lágrimas.
INGRID
- (tel.) Claro, claro. (t.) Tudo bem, pode vir hoje mesmo. (t.) Não, não tem problema.
Maria
Fernanda entra.
INGRID
- (tel.) Ok, obrigada. (t.)
Perfeitamente, pode trazer! (t.) Pra você também. Até mais.
Ingrid
desliga.
MARIA
FERNANDA - Quem era, mamãe?
INGRID
- Madalena. Eu a recontratei, e ela volta hoje mesmo.
MARIA
FERNANDA - O quê? Mamãe, como você pode permitir que essa
incompetente volte pra cá?
INGRID
- Filha, vamos sentar aqui um pouquinho.
As
duas sentam.
INGRID
- Por que você é assim, hein?
MARIA
FERNANDA - Assim como, mamãe?
INGRID
- Assim, tão amarga. Você não era desse jeito, era até amiga das empregadas
quando criança!
Maria
Fernanda permanece em silêncio.
INGRID
- Foi desde aquele dia, né?
MARIA
FERNANDA - Mamãe, por favor...
INGRID
- Quando o Maurílio se foi, acabou o seu amor, não é verdade? Você ficou podre
por dentro, não tem outro sentimento além de ódio. Ódio da vida, ódio das
pessoas... Ódio de tudo!
MARIA
FERNANDA - Quando o Maurílio foi morto, eu desacreditei no
amor e na igualdade. Eu até me revoltava, sabe, quando discriminavam alguém por
ser pobre, por ser de cor diferente...
INGRID
- Até que mataram o Maurílio.
MARIA
FERNANDA - (chora) Aquele infeliz que matou o meu irmão não
passava de um pobretão que queria roubar a nossa família. Pra mim, todo pobre é
assim! Pra mim não existe mais amor, mamãe!
INGRID
- Oh, meu amor... vem cá! Me dá um abraço!
Maria
Fernanda abraça Ingrid.
INGRID
- O amor existe, filha! Eu te amo! Eu te amo, Maria Fernanda!
MARIA
FERNANDA - E aquela menina, mãe... ela é filha do Laerte!
Eu não posso deixar que ela namore com o meu filho, eu prometi vingar o
Maurílio e acabar com todos os Vasconcelos!
INGRID
- Não acredite nesse ditado de que filho de peixe, peixinho é. A Vitória não
parece uma ameaça a ninguém! Veja só, ela é uma modelo conhecida mundialmente,
ela não iria acabar com a carreira cometendo algum homicídio.
MARIA
FERNANDA - Não interessa, eu prometi pro meu irmão! Eu
prometi!
INGRID
- Filha...
MARIA
FERNANDA - Eu vou fazer o que eu prometi, mamãe. Eu não
descanso enquanto não vingar o meu irmão!
Maria
Fernanda vai saindo.
INGRID
- Espera, filha!
MARIA
FERNANDA - (vira) O que é, mamãe?
INGRID
- Eu te amo! E se ainda houver um vestígio de amor em você... ame os outros
também!
Maria
Fernanda derrama uma lágrima e se vira, subindo as escadas.
INGRID
- (chora) Ah, Fernanda... quando você descobrir... minha filha!
Ingrid
abraça uma almofada e continua chorando.
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04/EXT./CASA DE ARTURO/FRENTE/DIA
Kátia
Flávia chega e procura a chave em sua bolsa. Não vemos sua cabeça.
KÁTIA
FLÁVIA - Ai, droga! Esqueci a chave!
Ela
toca a campainha.
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05/INT./CASA DE ARTURO/SALA/DIA
Sandra
abre a porta.
SANDRA
- Kátia Flávia? É você mesmo?
CAM
mostra Kátia Flávia de baixo para cima. Quando chega em sua cabeça, vemos que
ela está loira.
KÁTIA
FLÁVIA - Sou eu mesmo, queridinha. Ao vivo, a cores e em
alta definição.
SANDRA
- Você tá loira?
KÁTIA
FLÁVIA - Não, Sandrinha, eu pintei o cabelo de azul e
você que é daltônica. Claro que eu tô loira. E digo mais: agora eu sou
definitivamente Kátia Flávia, a louraça gostosona e provocante da música.
SANDRA -
Tá mais pra louraça belzebu, viu?
KÁTIA
FLÁVIA - Tá bom, querida, cansei do seu humor ferino. Não
vai me deixar entrar?
SANDRA
- Entra logo, garota!
Kátia
Flávia entra, põe a bolsa sobre a mesa de centro e senta no sofá. Sandra
senta-se ao seu lado.
SANDRA
- E então, por que você resolveu pintar o cabelo? É pra esconder os fios
brancos?
KÁTIA
FLÁVIA - Pra sua informação, recalcada, eu me virei loira
pra tirar de uma vez por todas a imagem da Kátia Flávia infantil.
SANDRA
- Então você acha que a cor do seu cabelo vai te fazer amadurecer? Haha! Minha
querida, você pode pintar de azul, de amarelo, de vermelho, pode fazer a
bandeira LGBT no seu cabelo, mas vai continuar infantil.
KÁTIA
FLÁVIA - Cala a sua boca, serpente do mal! Cadê o tio
Arturo? Já deu o bote nele?
SANDRA
- Não, amor, ele tá tomando uma sonequinha lá no quarto. Fala baixo pra não
acordar, tá?
KÁTIA
FLÁVIA - Dormindo... sei... Dormindo o sono eterno, né?
Eu não duvido que você seja capaz de matar aquele velho de susto!
Arturo
desce as escadas.
ARTURO
- Falando de mim, não é, Kátia Flávia? Pois saiba muito bem...
Arturo
olha para o cabelo de Kátia Flávia.
ARTURO
- Ah, desculpa. Eu te confundi com a minha sobrinha. Sandra, não me apresenta a
sua amiga?
SANDRA
- Seu Arturo, essa é a Kátia Flávia mesmo. Deus me livre de ser amiga dessa aí.
ARTURO
- Essa aí é a Kátia Flávia?
KÁTIA
FLÁVIA - Sou eu mesmo, tio Arturo. Você não me reconheceu
só pelo meu cabelo? Ah, se bem que você já tá velhinho, né? Não distingue uma
anta de um golfinho.
ARTURO
- Velho é o seu avô! E quanto a isso aí que você disse, eu posso distinguir sim
uma anta de um golfinho. Anta é um animal desagradável de se ver, uma coisa
horrorosa... tipo você, sabe? Já golfinho não! Golfinho é nobre, um animal
lindo, como a Sandra.
KÁTIA
FLÁVIA - Ah, tio Arturo, fala sério! Tá me comparando com
esse espantalho aí? Pelo amor de Deus!
SANDRA
- Quem é o espantalho?
KÁTIA
FLÁVIA - É você mesmo!
ARTURO
- Não fala assim da minha Sandrinha!
Começa
uma confusão.
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06/EXT./PRAIA DE IPANEMA/DIA
(SONOPLASTIA:
MUITO GELO E POUCO WHISKY - MÁRCIA FELLIPE)
Nenê,
de chapéu, maiô e óculos de sol, deitada em uma esteira. O celular toca e ela
atende.
NENÊ
- Alô? (t.) Não, papai, tô na praia.
Eu deixei um bilhetinho em cima da cama, não viu? (t.) Sozinha, claro. Por quê? O que aconteceu? (t.) Então pra que você me ligou?
Greg,
sem camisa, sai do mar e encontra uma mulher de biquíni, que o beija.
NENÊ
- Mas é um cafajeste mesmo! Não, papai, não é você. Olha, depois você me liga,
tá? Tchau!
Nenê
desliga e vai até Greg.
NENÊ
- Canalha! Nenê dá um tapa na cara de Greg.
MULHER
- Que é isso? Por que você tá batendo no Hiago, sua mandada?
NENÊ
- Hiago? Então você tem nomes falsos, seu cafa?
GREG
- Nenê, veja bem/
NENÊ
- (corta) Veja bem nada, Gregório! Não bastava me trair com a baranga da
Rosicler, ainda sai com essa... garota.
MULHER
- É o quê? Você tá me traindo, Hiago? Eu não acredito!
GREG
- Calma, Mayara! Tudo tem uma explicação...
NENÊ
- Você vai dar uma explicação pra palma da minha mão, safado!
MULHER -
É isso aí! Sem-vergonha!
GREG
- Pé na tábua!
Greg
sai correndo. Nenê e Mayara correm atrás dele.
MUSIC FADE.
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07/INT./CASA DE ROSICLER/SALA/DIA
Ouvem-se
batidas insistentes na porta.
NÍNIVE
- Já vai!
As
batidas continuam.
NÍNIVE
- Calma, que agonia! Eu já vou atender.
Nínive
abre a porta. Greg entra correndo.
GREG
- Tranca essa porta, rápido! Tranca a porta!
NÍNIVE
- (trancando) Tá, tá, eu já tranquei. Agora eu posso saber quem é você?
GREG
- A sua mãe me conhece. Cadê ela?
NÍNIVE
- Ela tá lá em cima, no quarto. Mas você/
GREG
- (corta) Tá, obrigado. Não destranca essa porta!
Greg
sobe as escadas.
NÍNIVE
- Eu, hein? Cara estranho...
Nínive
senta-se no sofá.
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08/INT./CASA DE ROSICLER/QUARTO ROSICLER/DIA
Rosicler
deitada na cama, lendo uma revista qualquer de moda.
ROSICLER
- Deus que me perdoe, mas essa modelo é feia! Pelo amor de Deus, que magra!
Será que ela come o que, vento?
Greg
entra.
GREG
- Oi, Rosicler... tudo bem?
ROSICLER
- Gregório?
Greg
sem jeito. Rosicler zangada.
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09/INT./MANSÃO TRINDADE/SALA/DIA
Maria
Fernanda sentada no sofá vendo TV. A campainha toca e Ingrid abre a porta.
Madalena e Angélica.
INGRID
- Madalena, que bom que você voltou! E essa deve ser a Angélica, não?
ANGÉLICA
- Sou eu mesmo. Muito prazer!
INGRID
- O prazer é todo meu! Educada, não é, Madalena?
MADALENA
- Mas dá um trabalho que a senhora nem imagina, dona Ingrid!
INGRID
- Hahaha, eu imagino sim! Mas entrem, podem ficar à vontade!
Madalena
e Angélica entram. Maria Fernanda finge que não viu.
INGRID
- Eu vou fazer umas comprinhas no mercado, mas não me demoro. Até daqui a
pouco!
MADALENA
- Até mais, dona Ingrid!
Ingrid
sai.
MADALENA
- Angélica, por que você não vai ler uns livros no escritório?
ANGÉLICA
- Mas só deve ter livro chato de adulto, tia Madá.
MADALENA
- Não tem não, a dona Ingrid adora ler uns contos de vez em quando. Procura lá
que você acha.
ANGÉLICA
- Tá bom.
Angélica
vai para o escritório e deixa a porta aberta. Maria Fernanda levanta.
(SONOPLASTIA:
THE MASS - ERA)
MARIA
FERNANDA - Então quer dizer que você voltou, Madalena? Isso
é bom, muito bom! Você permanece trabalhando, né? Você tem sorte da bondade da
minha mãe.
MADALENA
- Dona Maria Fernanda, eu quero/
MARIA
FERNANDA - (corta) Eu não lembro de ter te dado a palavra,
até porque quem está falando sou eu!
MADALENA
- Sim, senhora.
MARIA
FERNANDA - Bom, já que você continua sendo minha empregada,
nada mais justo que exercer o seu trabalho.
Maria
Fernanda pega uma xícara cheia de café que estava em cima da mesa de centro e
derrama no chão.
MARIA
FERNANDA - Limpa!
Madalena
tira um paninho de dentro do seu bolso.
MARIA
FERNANDA - Ei, ei, ei! Pra que é esse pano?
MADALENA
- Pra limpar o café, como a senhora pediu.
MARIA
FERNANDA - Primeiro: eu não peço, eu ordeno! Segundo: quem
disse que você vai limpar com panos, esponjas ou outros materiais?
MADALENA
- Não?
MARIA
FERNANDA - Tsc, tsc, tsc, tsc!
MADALENA
- Então com o quê?
MARIA
FERNANDA - Com a língua!
Madalena
fica em choque.
MARIA
FERNANDA - Anda que esse café não vai se limpar sozinho!
Faz o que eu tô mandando!
Madalena
se abaixa, humilhada, e começa a lamber o chão.
NO ESCRITÓRIO, Angélica, com fones de ouvido, tira
selfies de costas para a porta aberta, que mostra o que acontece na sala.
DE VOLTA À SALA, Madalena continua lambendo o chão.
MARIA
FERNANDA - Isso, deixa esse chão um brinco! Se quer voltar
a trabalhar aqui, vai trabalhar humilhada!
Maria
Fernanda põe o SALTO nas costas de Madalena, que para.
MARIA
FERNANDA - Parou por que, incompetente? Ainda tem café
espalhado no chão. Vai, continua!
Madalena
volta a lamber o chão. Maria Fernanda solta uma risada diabólica.
FIM DO CAPÍTULO
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