sábado, 19 de dezembro de 2015

Capítulo 13: Castelo de Cartas

CENA 01/EXT./STOCK SHOTS/RIO DE JANEIRO/DIA
FADE IN.
(SONOPLASTIA: OBLOCO - MARIA GADÚ)
Imagens do cotidiano. Pessoas caminham na orla. Um mulher rega seu jardim. Crianças brincam na praia. Panorâmica do Cristo Redentor.
MUSIC FADE.
Corta para:

CENA 02/INT./SUPERMERCADO/DIA
Lucas empurra um carrinho não muito cheio. Vitória corre até ele, com três caixas nas mãos.
LUCAS - O que é isso?
VITÓRIA - Ué, as bolinhas pra árvore de Natal. Não foi pra isso que a gente veio aqui, pra comprar os enfeites pra sua casa?
LUCAS - Putz, eu já tava esquecendo. É que aquilo na hora do café me deixou muito intrigado.
VITÓRIA - Eu também fiquei. Lucas, será que eu sou um estorvo pra vocês? Pode falar, não tem problema, eu paro de frequentar a sua casa/
LUCAS - (corta) Não, Vitória, claro que não. A minha mãe é que gosta de implicar com todo mundo mesmo. Quanto a isso, você não precisa dar a mínima importância.
VITÓRIA - Mas o que não me sai da cabeça é a reação da sua mãe quando eu falei do meu pai, lembra?
LUCAS - Lembro. E também lembro que, nessa hora, a minha avó saiu correndo da mesa, se isolou no quarto. O que será que tá acontecendo, Vitória?
VITÓRIA - Essa é a pergunta que não quer calar. O que tá acontecendo?
Os dois continuam andando.
Já cortou antes para:

CENA 03/INT./MANSÃO TRINDADE/SALA/DIA
Ingrid desce as escadas falando ao celular e enxugando as lágrimas.
INGRID - (tel.) Claro, claro. (t.) Tudo bem, pode vir hoje mesmo. (t.) Não, não tem problema.
Maria Fernanda entra.
INGRID - (tel.) Ok, obrigada. (t.) Perfeitamente, pode trazer! (t.) Pra você também. Até mais.
Ingrid desliga.
MARIA FERNANDA - Quem era, mamãe?
INGRID - Madalena. Eu a recontratei, e ela volta hoje mesmo.
MARIA FERNANDA - O quê? Mamãe, como você pode permitir que essa incompetente volte pra cá?
INGRID - Filha, vamos sentar aqui um pouquinho.
As duas sentam.
INGRID - Por que você é assim, hein?
MARIA FERNANDA - Assim como, mamãe?
INGRID - Assim, tão amarga. Você não era desse jeito, era até amiga das empregadas quando criança!
Maria Fernanda permanece em silêncio.
INGRID - Foi desde aquele dia, né?
MARIA FERNANDA - Mamãe, por favor...
INGRID - Quando o Maurílio se foi, acabou o seu amor, não é verdade? Você ficou podre por dentro, não tem outro sentimento além de ódio. Ódio da vida, ódio das pessoas... Ódio de tudo!
MARIA FERNANDA - Quando o Maurílio foi morto, eu desacreditei no amor e na igualdade. Eu até me revoltava, sabe, quando discriminavam alguém por ser pobre, por ser de cor diferente...
INGRID - Até que mataram o Maurílio.
MARIA FERNANDA - (chora) Aquele infeliz que matou o meu irmão não passava de um pobretão que queria roubar a nossa família. Pra mim, todo pobre é assim! Pra mim não existe mais amor, mamãe!
INGRID - Oh, meu amor... vem cá! Me dá um abraço!
Maria Fernanda abraça Ingrid.
INGRID - O amor existe, filha! Eu te amo! Eu te amo, Maria Fernanda!
MARIA FERNANDA - E aquela menina, mãe... ela é filha do Laerte! Eu não posso deixar que ela namore com o meu filho, eu prometi vingar o Maurílio e acabar com todos os Vasconcelos!
INGRID - Não acredite nesse ditado de que filho de peixe, peixinho é. A Vitória não parece uma ameaça a ninguém! Veja só, ela é uma modelo conhecida mundialmente, ela não iria acabar com a carreira cometendo algum homicídio.
MARIA FERNANDA - Não interessa, eu prometi pro meu irmão! Eu prometi!
INGRID - Filha...
MARIA FERNANDA - Eu vou fazer o que eu prometi, mamãe. Eu não descanso enquanto não vingar o meu irmão!
Maria Fernanda vai saindo.
INGRID - Espera, filha!
MARIA FERNANDA - (vira) O que é, mamãe?
INGRID - Eu te amo! E se ainda houver um vestígio de amor em você... ame os outros também!
Maria Fernanda derrama uma lágrima e se vira, subindo as escadas.
INGRID - (chora) Ah, Fernanda... quando você descobrir... minha filha!
Ingrid abraça uma almofada e continua chorando.
Corta para:

CENA 04/EXT./CASA DE ARTURO/FRENTE/DIA
Kátia Flávia chega e procura a chave em sua bolsa. Não vemos sua cabeça.
KÁTIA FLÁVIA - Ai, droga! Esqueci a chave!
Ela toca a campainha.
Corta para:

CENA 05/INT./CASA DE ARTURO/SALA/DIA
Sandra abre a porta.
SANDRA - Kátia Flávia? É você mesmo?
CAM mostra Kátia Flávia de baixo para cima. Quando chega em sua cabeça, vemos que ela está loira.
KÁTIA FLÁVIA - Sou eu mesmo, queridinha. Ao vivo, a cores e em alta definição.
SANDRA - Você tá loira?
KÁTIA FLÁVIA - Não, Sandrinha, eu pintei o cabelo de azul e você que é daltônica. Claro que eu tô loira. E digo mais: agora eu sou definitivamente Kátia Flávia, a louraça gostosona e provocante da música.
SANDRA - Tá mais pra louraça belzebu, viu?
KÁTIA FLÁVIA - Tá bom, querida, cansei do seu humor ferino. Não vai me deixar entrar?
SANDRA - Entra logo, garota!
Kátia Flávia entra, põe a bolsa sobre a mesa de centro e senta no sofá. Sandra senta-se ao seu lado.
SANDRA - E então, por que você resolveu pintar o cabelo? É pra esconder os fios brancos?
KÁTIA FLÁVIA - Pra sua informação, recalcada, eu me virei loira pra tirar de uma vez por todas a imagem da Kátia Flávia infantil.
SANDRA - Então você acha que a cor do seu cabelo vai te fazer amadurecer? Haha! Minha querida, você pode pintar de azul, de amarelo, de vermelho, pode fazer a bandeira LGBT no seu cabelo, mas vai continuar infantil.
KÁTIA FLÁVIA - Cala a sua boca, serpente do mal! Cadê o tio Arturo? Já deu o bote nele?
SANDRA - Não, amor, ele tá tomando uma sonequinha lá no quarto. Fala baixo pra não acordar, tá?
KÁTIA FLÁVIA - Dormindo... sei... Dormindo o sono eterno, né? Eu não duvido que você seja capaz de matar aquele velho de susto!
Arturo desce as escadas.
ARTURO - Falando de mim, não é, Kátia Flávia? Pois saiba muito bem...
Arturo olha para o cabelo de Kátia Flávia.
ARTURO - Ah, desculpa. Eu te confundi com a minha sobrinha. Sandra, não me apresenta a sua amiga?
SANDRA - Seu Arturo, essa é a Kátia Flávia mesmo. Deus me livre de ser amiga dessa aí.
ARTURO - Essa aí é a Kátia Flávia?
KÁTIA FLÁVIA - Sou eu mesmo, tio Arturo. Você não me reconheceu só pelo meu cabelo? Ah, se bem que você já tá velhinho, né? Não distingue uma anta de um golfinho.
ARTURO - Velho é o seu avô! E quanto a isso aí que você disse, eu posso distinguir sim uma anta de um golfinho. Anta é um animal desagradável de se ver, uma coisa horrorosa... tipo você, sabe? Já golfinho não! Golfinho é nobre, um animal lindo, como a Sandra.
KÁTIA FLÁVIA - Ah, tio Arturo, fala sério! Tá me comparando com esse espantalho aí? Pelo amor de Deus!
SANDRA - Quem é o espantalho?
KÁTIA FLÁVIA - É você mesmo!
ARTURO - Não fala assim da minha Sandrinha!
Começa uma confusão.
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CENA 06/EXT./PRAIA DE IPANEMA/DIA
(SONOPLASTIA: MUITO GELO E POUCO WHISKY - MÁRCIA FELLIPE)
Nenê, de chapéu, maiô e óculos de sol, deitada em uma esteira. O celular toca e ela atende.
NENÊ - Alô? (t.) Não, papai, tô na praia. Eu deixei um bilhetinho em cima da cama, não viu? (t.) Sozinha, claro. Por quê? O que aconteceu? (t.) Então pra que você me ligou?
Greg, sem camisa, sai do mar e encontra uma mulher de biquíni, que o beija.
NENÊ - Mas é um cafajeste mesmo! Não, papai, não é você. Olha, depois você me liga, tá? Tchau!
Nenê desliga e vai até Greg.
NENÊ - Canalha! Nenê dá um tapa na cara de Greg.
MULHER - Que é isso? Por que você tá batendo no Hiago, sua mandada?
NENÊ - Hiago? Então você tem nomes falsos, seu cafa?
GREG - Nenê, veja bem/
NENÊ - (corta) Veja bem nada, Gregório! Não bastava me trair com a baranga da Rosicler, ainda sai com essa... garota.
MULHER - É o quê? Você tá me traindo, Hiago? Eu não acredito!
GREG - Calma, Mayara! Tudo tem uma explicação...
NENÊ - Você vai dar uma explicação pra palma da minha mão, safado!
MULHER - É isso aí! Sem-vergonha!
GREG - Pé na tábua!
Greg sai correndo. Nenê e Mayara correm atrás dele.
MUSIC FADE.
Corta para:

CENA 07/INT./CASA DE ROSICLER/SALA/DIA
Ouvem-se batidas insistentes na porta.
NÍNIVE - Já vai!
As batidas continuam.
NÍNIVE - Calma, que agonia! Eu já vou atender.
Nínive abre a porta. Greg entra correndo.
GREG - Tranca essa porta, rápido! Tranca a porta!
NÍNIVE - (trancando) Tá, tá, eu já tranquei. Agora eu posso saber quem é você?
GREG - A sua mãe me conhece. Cadê ela?
NÍNIVE - Ela tá lá em cima, no quarto. Mas você/
GREG - (corta) Tá, obrigado. Não destranca essa porta!
Greg sobe as escadas.
NÍNIVE - Eu, hein? Cara estranho...
Nínive senta-se no sofá.
Corta para:

CENA 08/INT./CASA DE ROSICLER/QUARTO ROSICLER/DIA
Rosicler deitada na cama, lendo uma revista qualquer de moda.
ROSICLER - Deus que me perdoe, mas essa modelo é feia! Pelo amor de Deus, que magra! Será que ela come o que, vento?
Greg entra.
GREG - Oi, Rosicler... tudo bem?
ROSICLER - Gregório?
Greg sem jeito. Rosicler zangada.
Corta para:

CENA 09/INT./MANSÃO TRINDADE/SALA/DIA
Maria Fernanda sentada no sofá vendo TV. A campainha toca e Ingrid abre a porta. Madalena e Angélica.
INGRID - Madalena, que bom que você voltou! E essa deve ser a Angélica, não?
ANGÉLICA - Sou eu mesmo. Muito prazer!
INGRID - O prazer é todo meu! Educada, não é, Madalena?
MADALENA - Mas dá um trabalho que a senhora nem imagina, dona Ingrid!
INGRID - Hahaha, eu imagino sim! Mas entrem, podem ficar à vontade!
Madalena e Angélica entram. Maria Fernanda finge que não viu.
INGRID - Eu vou fazer umas comprinhas no mercado, mas não me demoro. Até daqui a pouco!
MADALENA - Até mais, dona Ingrid!
Ingrid sai.
MADALENA - Angélica, por que você não vai ler uns livros no escritório?
ANGÉLICA - Mas só deve ter livro chato de adulto, tia Madá.
MADALENA - Não tem não, a dona Ingrid adora ler uns contos de vez em quando. Procura lá que você acha.
ANGÉLICA - Tá bom.
Angélica vai para o escritório e deixa a porta aberta. Maria Fernanda levanta.
(SONOPLASTIA: THE MASS - ERA)
MARIA FERNANDA - Então quer dizer que você voltou, Madalena? Isso é bom, muito bom! Você permanece trabalhando, né? Você tem sorte da bondade da minha mãe.
MADALENA - Dona Maria Fernanda, eu quero/
MARIA FERNANDA - (corta) Eu não lembro de ter te dado a palavra, até porque quem está falando sou eu!
MADALENA - Sim, senhora.
MARIA FERNANDA - Bom, já que você continua sendo minha empregada, nada mais justo que exercer o seu trabalho.
Maria Fernanda pega uma xícara cheia de café que estava em cima da mesa de centro e derrama no chão.
MARIA FERNANDA - Limpa!
Madalena tira um paninho de dentro do seu bolso.
MARIA FERNANDA - Ei, ei, ei! Pra que é esse pano?
MADALENA - Pra limpar o café, como a senhora pediu.
MARIA FERNANDA - Primeiro: eu não peço, eu ordeno! Segundo: quem disse que você vai limpar com panos, esponjas ou outros materiais?
MADALENA - Não?
MARIA FERNANDA - Tsc, tsc, tsc, tsc!
MADALENA - Então com o quê?
MARIA FERNANDA - Com a língua!
Madalena fica em choque.
MARIA FERNANDA - Anda que esse café não vai se limpar sozinho! Faz o que eu tô mandando!
Madalena se abaixa, humilhada, e começa a lamber o chão.
NO ESCRITÓRIO, Angélica, com fones de ouvido, tira selfies de costas para a porta aberta, que mostra o que acontece na sala.
DE VOLTA À SALA, Madalena continua lambendo o chão.
MARIA FERNANDA - Isso, deixa esse chão um brinco! Se quer voltar a trabalhar aqui, vai trabalhar humilhada!
Maria Fernanda põe o SALTO nas costas de Madalena, que para.
MARIA FERNANDA - Parou por que, incompetente? Ainda tem café espalhado no chão. Vai, continua!
Madalena volta a lamber o chão. Maria Fernanda solta uma risada diabólica.

FIM DO CAPÍTULO


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