O ambiente me é
familiar. Paredes rústicas, plantas nascendo nas paredes, um ou outro resquício
de luta e alguns espirros de sangue. Por um momento, penso estar no calabouço
do inferno novamente, mas esse lugar é bem mais claro que o calabouço.
Viro-me e vejo
Sara. Abro um sorriso enorme ao dar de cara com ela depois de tanto tempo, e
não consigo evitar abraça-la. Ela retribui meio desajeitada, mas retribui.
Quando a solto, vejo que todos também estão aqui. Fico um pouco confuso, e Syndel
vem a meu encontro.
— As pulseiras
são parte do armamento dos caçadores. São bem raras. Kratos conseguiu por as
mãos em algumas para podermos resgatar o máximo de aliados possível da Area 51.
– Ela diz e eu olho direto para Meghan e Peter. – Mas quando a última pulseira
se ativou e você não apareceu... Bom, percebemos que tinha alguma coisa errada.
— Eu estava sem
energias – Explico. – Eu sabia que vocês tinham sido transportados para algum
lugar, e quando Jared sumiu, a única ideia que eu tinha era a de atravessar a
parede, mas não teria energia suficiente para chegar até o carro. Estão todos
bem?
— Luna está
descansando, assim como Íris e Katherine. – Sara diz, com sua voz calma de
sempre. – Ryan e os Winchesters estão nos portões, vigiando.
— E E.D.? –
Pergunto.
Meghan vem até
meu encontro e me entrega um cordão com uma pedra translúcida atravessando-o. Ela
fecha minhas mãos e Sara as segura. Sara respira fundo e um monte de imagens
passa pela minha mente.
— Eles já deveriam estar aqui, Kratos!
— Sara, estou fazendo o máximo que eu posso! As pulseiras
funcionam de maneira diferente para cada um deles.
Estou numa espécie de memória de terceira pessoa. Eu vejo a
cena inteira com meus olhos, mesmo que eu não tenha participado do
acontecimento. É meio constrangedor ver tudo e não poder ajudar, mas seja lá o
que venha a seguir, tenho certeza de que será bastante pior.
Sara e Kratos correm até alguém que acabou de cair do nada.
Corro até o mesmo local que eles e vejo Kitana caída no chão. As pulseiras
provavelmente dão um cansaço em quem as usa, afinal, somos desmaterializados e
materializados novamente em outro lugar, o que presumo que exija bastante
energia.
— Você está bem? Onde estão os outros? – Kratos pergunta.
— Sim, estou. Chase e Luna ajudaram alguns outros a fugir.
Eu coloquei as pulseiras neles e eles devem chegar aqui a qualquer momento.
Estávamos nos escondendo de alguns agentes quando eu sumi.
Sara guia Kitana até uma mesa de pedra similar a uma maca, e
coloca alguns curativos nela. Não mais que dois minutos depois, Íris e Peter
aparecem seguidos de Katherine e Meghan. Kratos toma conta de todos os quatro.
— Syndel e Jared foram buscar Luna e Chase. – Diz Katherine,
cansada. – Está um caos lá dentro e não temos nem como revidar. Temo que eles
não consigam.
Kratos parece preocupado. Olho em seus olhos e percebo que
ele não quer perder mais nenhum membro de sua família. Milena já foi perda
suficiente. Meu estômago chega a doer por conta do olhar pesado de Kratos, e
tento me recompor, já que isso aqui não é uma memória minha.
Ouço um estrondo vindo da minha esquerda. Olho imediatamente
e logo percebo de onde eu reconheço este lugar. É o castelo de Sara. Claro,
está num local diferente de antes, mas a aparência permanece praticamente a
mesma – exceto que agora as paredes estão em pé, e não aos destroços pelo chão
por conta do ataque de Morte –. Kratos e Kitana correm até a porta de entrada e
observam por um buraco. Kitana se vira para nós, apreensiva.
— Helicópteros. – Sua voz soa mais preocupada que o normal.
– Muitos deles.
— Kitana e eu ficaremos vigiando o perímetro. Não vamos
deixar ninguém morrer hoje.
— Entendo. – Sara diz e sua voz soa bastante preocupada.
Kratos e Kitana vão a uma sala e voltam alguns minutos
depois, repletos de armamentos. Se existem duas pessoas que eu confio para
proteger esse castelo, são esses dois. Eles saem pela porta e Ryan aparece
diante dos dois, transformado. Imagino que por ser um transmutado, a pulseira
trabalhe de maneira diferente com ele. Tento ir ao encontro deles, no intuito
de ajudar, mas não consigo atravessar o batente. A porta se fecha e tudo o que
me resta é esperar.
Sara está apreensiva e eu também. Meghan e Peter estão
sentados na maca, também sem poder ajudar. Não os julgo, afinal, se Peter
tentasse trocar alguém de corpo e não funcionasse, teríamos uma baixa na nossa
aliança, e se Meghan tentasse lançar fogo nos helicópteros, mesmo que ela
tivesse sucesso, causaria mais destruição do que vitória. Íris e Katherine
saíram do meu campo de visão, e imagino que ambas estejam bastante abatidas.
Quando Eu e Luna atravessamos a parede sozinhos, eu caí no chão por cansaço, e
Luna ficou bastante atordoada, então imagino que quem atravessa a parede também
fica tão desorientado quanto quem os atravessa.
Eis que Luna e Syndel surgem, ambas jogadas no chão. Sara
corre desesperada até elas e checa pelo pulso de Luna. Syndel levanta meio
tonta e procura pelo seu transmissor.
— O pulso dela está bastante fraco. – Sara diz. – Preciso
leva-la até a ala médica, rápido!
As palavras dela percorrem o local inteiro. Peter corre até
Luna e a levanta, carregando-a até a ala médica, e isso está fora do meu campo
de visão. Sara anda de um lado para o outro e Syndel finalmente acha o seu
transmissor.
— Kratos? Kratos, cadê você? – Ela pergunta, mas não há
resposta no transmissor.
— Ele está nos portões. Temos visitantes indesejados. – Sara
responde. – Onde estão Jared e Chase? Por que não voltaram ainda?
— A situação estava bastante crítica quando saímos. Receio
que tenham sido capturados. – Há uma pausa em sua voz. – Precisamos cuidar dos
invasores.
Syndel corre até a porta e a abre. Por três segundos, tenho
uma leve visão do caos que está lá fora. Ryan está brigando no ar com alguns
dos helicópteros, enquanto os Winchesters atiram sem parar. A porta se fecha.
Meu coração dispara. Jared não demorará chegar, mas o intervalo entre E.D. e eu
foi bastante longo e receio que o pior tenha acontecido com eles sem que eu
tivesse a mínima chance de ajuda-los. Peter retorna e Meghan o abraça por
alguns segundos. Jared aparece.
— Precisamos tirar o Chase de lá agora! – Ele grita.
— Por quê? O que houve? – Sara pergunta, apreensiva.
— Fomos cercados por soldados e agentes do governo. Chase e
eu estávamos prestes a ser executados. Não podemos esperar a pulseira
funcionar, temos que ativá-la daqui. De onde meu pai estava monitorando?
Sara aponta para um computador um pouco fora do meu campo de
visão, pelo menos do meu campo bom de
visão. Depois de alguns segundos, ele retorna e se dirige até a sala de
armamentos. Os estrondos estão cada vez mais altos e os berros de Ryan me dão
um nervoso sem igual. Presto atenção em Sara. Seu cordão. É o mesmo que estou
segurando agora.
— Ativei a pulseira manualmente. Chase deve estar aqui em
torno de vinte segundos. Não posso esperar. Vou ajudar meu clã.
Jared sai e dessa vez não consigo ver a porta. Sara tira o
cordão e o entrega a Meghan. Ela estranha o objeto, mas o aceita sem dizer uma
palavra. Peter segura a mão dela e os dois parecem estar prestes a chorar.
— Eu vou ajudar os Winchesters. Se Chase chegar e eu não
estiver aqui, por favor, deem isso a ele e peça para uma de minhas alunas
ajuda-lo.
Sara estava quase chegando à porta quando E.D. surgiu
uivando mais alto que os berros de Ryan. Meghan e Peter caem no chão com o
susto e Sara abre a porta. E.D. corre até lá, indo em direção à batalha. Sara
fecha a porta e eu apareço do lado de fora. Estou no campo de visão dela, então
até que faz sentido eu aparecer aqui.
Olho para o céu e vejo Ryan dando uma patada em um dos
helicópteros, despedaçando-o em pleno ar. Quando outro se aproxima, Ryan cospe
fogo e o helicóptero explode, mas não antes do seu piloto ser ejetado. Ao olhar
para frente, vejo algumas tropas do exército se aproximando, e atirando contra
nós. Kitana e Jared atiram por um lado, e Syndel e Kratos por outro. Os homens
do exército são mais do que eu posso contar, mas há algo de errado com eles.
Eles não estão recuando, nem dando comandos de batalhas.
E.D. corre até um bando de homens e os estraçalha com suas
mordidas, e é aí que eu vejo o caos ir de mal a pior. Um tanque de guerra
adentra o território do castelo e atira por todos os lados. Um dos tiros acerta
E.D. em cheio, atravessando-o e deixando um buraco do tórax à suas costas. Ele
cai no chão, completamente sem vida. Sara leva à mão ao rosto e vejo-a com o
cordão novamente. Provavelmente me distraí e ela o recuperou. Outro tiro do
tanque vem em minha direção e acerta a parede ao meu lado, próximo de onde
Kitana e Jared estavam abrigados.
Sara se enche de raiva e ergue suas mãos para o céu. Uma
onda azulada de luz percorre todo o castelo e explode, atingindo todos os
homens do exército e derrubando cada um dos helicópteros no ar. Pergunto-me o
porquê de ela não ter feito isso antes, mas percebo que por hora, o melhor é
descansar até o próximo ataque.
— Chase ainda não voltou. – Ela diz.
— O quê? – Syndel grita e entra no castelo. Sara a segue.
Estou dentro do castelo novamente. As duas discutem por um
bom tempo, tentando procurar razão do porque eu ter desaparecido. Sara tenta
explicar que E.D. é meu amigo e provavelmente eu tentei salvá-lo, mas Syndel
acaba socando a parede, por ter pensado que eu fui executado. Sara segura a
cabeça dela com as duas mãos e depois a solta. Sara vira uma fumaça azulada e
some.
A memória acaba.
Não sei qual
deveria ser a minha reação aqui, mas a primeira coisa que eu penso em fazer é
correr até os portões para checar os Winchesters e Ryan. Escancaro a porta só
para encontrar Jared desacordado, Kitana encostada atrás de uns sacos
empilhados e Kratos atirando, como se não tivesse parado um minuto. Ryan também
está desacordado, mas ele está mais à frente, caído no chão, uns cem metros de
onde o corpo de E.D. está.
Caminho por
entre a pilha de corpos de soldados até chegar ao encontro de Ryan. Coloco dois
dedos no seu pescoço e concluo que ele está vivo, o que é um alívio. Sinto uma
grande dor enquanto caminho até o corpo morto de E.D., e alguns soldados
restantes apontam armas para mim. Eles atiram, mas ou não me acertam, ou são
atingidos por Kratos.
Chego ao corpo
de E.D. e sinto uma dor profunda por saber que dessa vez, ele não voltará.
Perdi as contas de quantas vezes ele salvou minha vida, lutou ao meu lado e foi
capturado por se aliar a mim. E.D. sempre foi leal a mim, e hoje, sua jornada
encerra. Com a minha telecinese, flutuo o seu corpo até dentro do castelo, e
vejo Sara fazendo o mesmo – mas com magia – de lá dentro, então eu solto ele da
minha mente. Um dos soldados atira e me acerta de raspão no braço. Viro-me e
ponho a mão na espada que Jared tinha me dado.
— Você vai se
arrepender de ter feito isso. – Digo em tom raivoso.
Pouso a minha
espada ao lado da sua cintura e ele larga a arma com a dor. Pressiono a espada
devagar, para ter certeza de que ele sofrerá bastante antes de eu partir o seu
corpo em dois.
— Vocês mataram
meu aliado. Meu amigo. Meu irmão.
— Inútil.
Ceifeiro. – Ele diz, em tom pausado enquanto o sangue escorre de sua boca. –
Eu. Saúdo. Lillith. – Ele levanta a mão para cima e eu termino o serviço.
Largo a espada
no chão, e apenas observo o sangue dele em meu braço.

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