Os três se
entreolharam. Carlos Henrique ingeriu o último gole da limonada, aproximou-se
de Lana, deu uma risada sarcástica e por fim deixou-as a sós. Lana trajava um
vestido vermelho enquanto Fernanda usava roupas simples de empregada.
- Então? Não vai me
contar como descobriu a minha casa? – Lana pressionou o braço de Fernanda. –
Anda garota! É para hoje!
- Você achou que eu
ia mofar na cadeia, não é? – Sorriu. – Eu saí com as duas mãos na frente!
- Sua cara me enoja,
sabia? – Fitou-a com um olhar raivoso. – O que queria com o meu marido, afinal?
- DINHEIRO! Um
emprego decente! – Respirou fundo. – Mas foi por acaso que encontrei a sua
casa.
Carlos Henrique,
atrás de uma cortina de seda branca, fumava um charuto. Ouvia toda a conversa e
observava as belas curvas de Lana. Sentou-se numa poltrona, esticou seu braço
esquerdo para trás do assento, ouvindo o que acabara de virar uma discussão.
- SAIA DAQUI! – O
grito de Lana ecoou pelos andares acima. – Você não receberá nenhum centavo a
partir de agora.
- Tá com medinho, né?
– Exibiu um largo sorriso. – Mas a minha relação com o seu marido é
extremamente profissional.
- Medo de você,
garota? Faça-me rir!
- Tudo bem. Se essa é
a sua vontade, eu respeito. Também não suporto essa sua cara de mulher
mal-amada. – Afastou-se de Lana. – Ah, eu fiz com o seu marido o que não
conseguiu durante tanto tempo: um filho!
- SAIA DAQUI! -
Esticou o braço para trás, e com o dedo indicador apontou para a porta.
Fernanda baixara a cabeça e disfarçava o riso com a mão sobre a boca.
***
Lauro, Conrado e
Roberto estavam sentados à mesa de vidro. O primeiro sentado na ponta e os dois
últimos na direita e esquerda respectivamente. Todos em assentos de cor preta,
em silêncio.
- A senhora Beatriz
foi bem clara em seu testamento. – Lauro quebrou o silêncio. - Em sua última
mudança, deixou explicito sua vontade. Por isso serei o mais breve possível. –
Pôs seus óculos de grau. – “Para minha filha, Iolanda Cavalcanti, deixo a
empresa da família, a revista Maxxes e cinqüenta milhões de reais. Ao meu
filho, Conrado Cavalcanti, a quantia de cem milhões de reais e ao meu marido,
Roberto Cavalcanti, que ficou ao meu lado durante tantos anos, a mansão em
Angra dos Reis e cerca de trinta jóias avaliadas em vinte milhões cada.”
- Tem uma coisa errada.
A minha mãe prometeu que eu seria o herdeiro da revista. Não a Iolanda! –
Conrado levantou-se e bateu com a mão fechada na mesa de vidro. – Esse
documento é falso!
- Acalme-se! – Lauro
respirou fundo e fitou o garoto, ainda sentado. – Conrado, a sua mãe deve ter
tido seus motivos para mudar o testamento. O documento é legal e não há nada
que vocês possam fazer.
- A Iolanda nunca foi
próxima da mamãe. Quando ela ficou doente, estava dia e noite do lado dela.
Quem merecia isso era eu!
- CHEGA! – Lauro levantou-se,
pôs o documento numa pasta cinza e em seguida numa maleta preta. – Trabalhei
durante anos para sua mãe, antes mesmo dela conhecer o senhor Roberto. A sua
mãe quis assim. Seja no mínimo respeitoso com ela. – Aproximou-se do sofá e
virou-se para trás. – Meus honorários já foram pagos, então não vejo porquê de
continuar a trabalhar para vocês.
- Por favor, Lauro.
Eu confio plenamente em você. Continue a ser nosso advogado! – Roberto
interrompeu os passos do homem à porta.
- Eu trabalhava para
a dona Beatriz, não para o senhor. No consultório existe uma gama de advogados.
Tenho certeza que um deles será tão competente como eu fui. – Abriu a porta. –
Até mais.
***
Uma moça empurra o
carrinho do aeroporto pelas dependências do local. Ela para em uma lanchonete e
sai com uma garrafa de água em mãos, quando seu telefone toca.
- Alô? – Parou de
andar. – Quem é? – Olhou para os lados. – Fernanda? De onde você me conhece?
- Não interessa. Não
agora. Mas fiquei sabendo que a Maxxes pertence a você. E tenho uma ótima
matéria para comemorar. – A voz era audível para quem passasse próxima a ela. –
Estou indo para o Rio amanhã. Se você me der o seu endereço, prometo que não se
arrependerá.
- Sobre quem é a
matéria?
- Carlos Henrique
Casagrande. – Assim que ouvira o nome, exibiu um sorriso espontâneo.
***
- Chegamos. – Roberto
estacionou a frente de um edifício e olhou para o filho, sentado no banco de
carona. – Saiu o resultado do laudo.
- Finalmente! –
Conrado arrumou o paletó. – Esse negócio de parada cardíaca nunca bateu comigo.
- Eu vou sozinho,
Conrado. Você fica aqui, no carro. Essa área é muito perigosa e não pretendo
gastar com outro tão cedo.
- Mas... – Antes de
terminar, Roberto já havia fechado a porta do veículo.
Em quinze minutos, o
homem havia retornado ao veículo. O envelope estava fechado. Entregou para o
garoto, que abrira imediatamente.
- Aqui diz que ela
ingeriu uma alta quantia de veneno. E por isso a parada cardíaca. – Conrado
terminou de ler. Roberto o fitava com lágrimas nos olhos. – Não disse? A
Iolanda deve estar envolvida nisso!
- Não acuse a sua
irmã. Não temos provas!
- Você não vai fazer
nada? A sua mulher morreu por causa da sua filha!
- Isso me dói. Mas
não faria diferença! A sua mãe já tinha sido diagnosticada com câncer terminal.
Os médicos prolongariam a vida dela em seis meses, não mais do que isso. De
certo modo, foi melhor assim. Ela sofreria muito tendo que se despedir de você
e da Iolanda.
- Se você não vai
fazer nada, eu vou!
- Fazer o quê,
Conrado? Ir atrás da sua irmã e obrigá-la a se entregar para a polícia? Você
julga a sua irmã, MAS É IGUAL A ELA! A Iolanda deve ter mexido no testamento
com a ajuda do Lauro, porque sabia que você seria o herdeiro da revista, coisa
que você tanto almeja no momento. Acontece que ela venceu o jogo. – Fez uma
pausa e ligou o carro. – Você é jovem. Tem uma vida pela frente! Sabe o que é
uma bebida, uma festa, um beijo de língua?
- Claro que eu sei
pai. - Respondeu timidamente.
- Então... Se divirta.
Um garoto bonito escondido em paletós pretos. Nunca pensei que ia dizer isso,
mas... Enche a cara, conversa com garotas da sua idade. VIVA A SUA VIDA!
***
DIAS DEPOIS
Carlos Henrique
observa a capa da revista Maxxes colocada na mesinha de centro. “CARLOS
HENRIQUE CASAGRANDE TRAI MULHER E ENGRAVIDA EMPREGADA”, enquanto Lana abre
a porta do apartamento.
- Você pode me
explicar o que é isso? – Lana chegara por trás e cochichara em seu ouvido. –
Qual o seu problema?
- Nenhum. Foi um erro
do momento. – Pôs o copo de uísque na mesinha. – E também não há necessidade
desse escarcéu.
- Erro do momento?
Você transou com a empregada, a deixou grávida e diz que é “um erro do
momento”?
- Se ela está grávida
ou não, o problema não é meu.
- Realmente Carlos
Henrique. Você me surpreende a cada dia! Nem para assumir com as próprias
responsabilidades você presta. Eu me casei com você...
- Por interesse! Não
esqueça que casou comigo para ter lugar na mídia. Bem, agora você tem a fama de
chifruda. Mas duvido que não tenha outro homem na jogada.
- Claro que não! –
Mentiu. – Eu gosto de você. Sempre quis um filho porque achei necessário. Uma
criança sempre alegra uma relação conturbada.
- Não seja hipócrita.
Você é fraca. Acha que é melhor do que os outros porque era mulher de um
empresário.
- Era? - Lana
pressionou o braço de Carlos Henrique com força. - Não acredito que vai fazer
isso comigo!
- É você que está fazendo consigo mesma. - Desvencilhara. - Pega as suas
coisas e se manda da minha casa! Não quero te ver nunca mais. Mas se isso vier
a acontecer, espero que seja na próxima encarnação. - Pôs as mãos na cintura. -
Eu não estou brincando. Quero você longe daqui!

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